Minha avô, dona Iraci, nasceu e cresceu em uma fazenda no interior da Bahia. Casou-se ainda adolescente e jamais frequentou a escola. Com alguma prima aprendeu o suficiente para assinar o próprio nome em seus documentos e, escrever o nome de cada filho que começou a ter desde os 17 anos de idade. Foram 8 no total.
Ao criar os filhos, todo o tempo ela incentivou a educação formal, sem nem perceber que sua maior contribuição foi dentro de casa mesmo, educando informalmente, recitando provérbios, palavras de sabedoria e, principalmente: cozinhando.
Ela nunca leu uma receita, aprendeu tudo observando sua mãe. Para ela, a comida sempre levava a um lugar: à mesa repleta de filhos, mais tarde de netos, que aprendiam a conviver juntos à medida que compartilhavam a refeição. Ali na mesa repreendia quem não sabia esperar o outro, ensinava a dividir, a aguardar o café até o bolo esfriar. Enfim, ensinava valores, era uma educação para vida cuja tecnologia era exatamente a cozinha. Sim, cozinha também é tecnologia, não necessariamente usando a mais moderna geladeira ou batedeira.
Tendemos a entender o termo tecnologia como algo ligado a informática, a computação e a internet. Apesar do termo ser bem empregado para designar tais itens, o termo tecnologia tem uma amplitude as vezes esquecida e ignorada por nossa geração digital.
Por tecnologia entende-se qualquer método ou técnica que o homem cria e, ou, estabelece para facilitar seu trabalho e tornar a vida mais fácil e agradável. Assim, dona Iraci sempre usou tecnologia ao bater seu bolo de fubá e, também ao sentar os filhos e os netos na mesa para transmitir-lhes valores. Dessa forma, a colher de pau era tecnologia, também o era sua própria fala ao dirigir-se a família ensinando-lhes algo. Era uma tecnologia para vida, uma tecnologia que tornou a família Andrade mais humana.
Atualmente encontro receitas no Google, diretamente do Iphone, de onde também acesso a internet para pesquisar temas referentes as matérias que estou estudando na universidade. Quase não escrevo a mão, usando o notebook, ou o telefone para registrar desde bilhetes para uma amiga aos textos que preciso escrever e que são frutos de reflexões feitas em sala de aula.
Digno de nota é que as salas de aula estão equipadas com projetor multimídia, os professores quase não usam o quadro, as explicações já são previamente digitadas em arquivos e anexadas a um power point. Não que isso seja ruim, ao contrário, facilita a vida e a rotina de estudo. Mas, ao ingressar em um curso de Tecnologia Educacional, paro para pensar no valor e no papel da tecnologia na vida humana; me deparo com uma tecnologia que aliena, que suprime, que amedronta. Onde estão as mentes pensantes se o Google pensa por nós? Qualquer dúvida que tenha, digite no Google é bem possível que alguém já a tenha postado antes e alguma alma caridosa já tenha feito o favor de respondê-la. Onde estão as pessoas que diante de uma dúvida, simplesmente alimentam o ser com o desvendar natural dela? O Google é a alternativa mais rápida. Aliás corremos muito, para desfrutar de avanços tecnológicos que pouco desfrutamos porque continuamos correndo. Não quero criticar o Google, do qual eu mesma sou assídua frequentadora e usuária mas, me deparo com uma questão: estamos tão conectados com a tecnologia que nos desconectamos de nós mesmos e de outros seres humanos.
Por fim, preciso dizer que a educação deve transformar, formar novas conceitos e quebrar paradigmas, inclusive a crença atual de que tecnologia restringe-se somente ao mundo cibernético. Há muito mais a ser usado, o professor deve lembrar-se disso fazendo uso consciente de tecnologias que promovam conhecimento técnico-cientifico mas, que ao mesmo tempo promovam a vida, a interação social, que humanizem, produzindo cidadãos que mesmo portadores do novo Iphone ainda sejam capazes de oferecer um pedaço de seu pão a outro que necessite, que concomitante a isso apresentem-se diante da sociedade como profissionais capazes e sustentáveis.Por Maely

Nenhum comentário:
Postar um comentário